DOS SIGNOS E DAS ESTAÇÕES

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Por Clovis Peres e Vanessa Guazzelli Paim

O signo significa uma vivência, fixando nos céus o momento em que o calor ou frio, a umidade e a secura se apresentam numa região qualquer do planeta. Não há outra origem para o signo, que é um conceito, do que a experiência comum dos corpos numa latitude qualquer.

No Hemisfério Norte, o signo do Capricórnio marca o Solstício de Inverno, e todas as representações que se faz do signo e do planeta Saturno são escuras, frias e adequadas ao longo período que se passa dentro de casa. No Hemisfério Sul, ao contrário, o Solstício de Verão, quando o dia é mais longo que a noite, ocorre no signo de Capricórnio, que, apesar disso, continua a ser tratado como um melancólico de inverno, guardando farelos do pão da manhã para a refeição da noite. As ideias de economia, parcimônia, frugalidade, próprias a quem só tem o que estiver armazenado, predominam nas significações saturninas e capricornianas do Hemisfério Norte. Mas, e aqui, no sul do mundo, onde o sol domina e, ás vezes, é avassalador? Quem nasce aqui, no fim do ano, no início do verão, pela influência real do calor sobre o corpo, tenderá a ser contraído, melancólico e grave como aquele que nasce no início do inverno na Europa ou América do Norte? Ou será um festeiro natural, envolto em calor e praia, ou trabalhador que sofre sob o sol de quase deserto?

Desde que o mundo é os corpos se ajuntam no frio e se dispersam no calor, e as festas do verão, do inverno, da primavera e do outono sacralizam e demarcam o espaço onde são celebradas, e ali se funda a casa e a comunidade. Mas, quando uma festa como o Natal, plena de significado para o Hemisfério Norte, porque celebrada desde muito antes do cristianismo, é transplantada para o verão do Hemisfério Sul, qual o sentido que ainda lhe resta? Ou quando a festa do renascimento da primavera, a Páscoa, é transplantada para o outono daqui, significa alguma coisa ou só desorienta os corpos, tornando-os presas fáceis, já que não têm ritmo e nem território algum?

Na angulação da Terra em relação às estrelas, os signos – e as festas – são o que são. Mas o são tão diferentes quando vivenciados na contração ou na expansão, no frio ou no calor, na distância ou na proximidade que cada latitude está do Sol, através das épocas do ano.

A Páscoa no norte é o renascimento que oportuniza a primavera. No Sul, o renascer da Páscoa é um despojar-se outonal, nutrindo o corpo e o coração para o período de maior distanciamento do Sol.

Por isso, dizemos que o Áries do Hemisfério sul é mais reativo, enquanto que o Áries do Hemisfério Norte é mais proativo; o Touro do sul, mais aconchegado, o do norte mais disposto. Áries e Touro pro Hemisfério Sul são experiências outonais, enquanto que no Hemisfério Norte são o despontar e o auge da primavera.
Por sua vez, Libra no sul é mais brejeira, florida e traz a leveza sentida pela promessa de maior proximidade com a luz. No norte, a mesma Libra se apresenta com gosto de final de verão, bela mas mais séria, mais ciente dos compromissos que fazem toda a diferença na hora de enfrentar o frio que está por vir. O Escorpião do sul tem toda sua intensidade como um crescendo alquímico na direção do auge solar, enquanto no norte ele é mais sombrio e pressente a morte do inverno, onde terá de acender a luz apenas dentro.

O Câncer no sul é o auge da necessidade de aconchego e apresenta uma suscetibilidade melancólica, que encontra conforto nas fogueiras de São João. Diferente do festivo Câncer do norte, que se nutre afetivamente pela experiência de poder passar mais tempo ao ar livre, onde está a gente. Enquanto a seriedade do Capricórnio no norte é mais melancólica, a do sul é mais festiva. E, mesmo no ferver da terra que racha com a seca, canta-se então:

“Caatingueira, caatingueira, diz o segredo que existe
Que somente a caatingueira enfeita a paisagem triste
Caatingueira, se és feliz
Não zombes nunca deste teu contraste
Segura tua raiz e pede a deus que ela nunca se gaste
Tão resseca a emburana, a terra seca e rachada
O marmeleiro se enrama, mas não aguenta a queimada
Sentindo como quem ama, a terra quente pede invernada
Quanto mais seca ribeira, a caatingueira fica enfolharada
Catingueira se um vintém, o teu se torna um milhão
Pede a deus por quem não tem, pra cair chuva no chão
Pois somente a caatingueira aguenta a seca lá do meu sertão
Sertanejo não quer nada, vê na invernada a maior bênção”
Caatingueira, Marinês (1967)

O Natal no norte é o acender da luz no âmago da escuridão. No sul, Natal é celebrar a máxima Luz e mostrar-se ao Sol. Viva, chegou o verão.

Por Clovis Peres e Vanessa Guazzelli Paim

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