TEORIA DE IV & X

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A Teoria de IV e X de Peres à Luz da Psicanálise

 
Por Vanessa Guazzelli Paim

Resumo: A Teoria de IV e X foi desenvolvida por Clóvis Peres na década de 1980, descendendo da Teoria dos Opostos de Emma de Mascheville, como um resultado de seu trabalho com as cruzes do zodíaco na interpretação astrológica. À luz da psicanálise, examina-se a profundidade desta abordagem astrológica, considerando a formação do sujeito que, a partir da cultura, emerge da família. Fazer a inversão das casas IV e X significa expressar seu legado como talento e apropriar-se do desejo. Palavres-Chave: Teoria de IV e X, astrologia, psicanálise.

Introdução
O presente trabalho propõe-se a apresentar a Teoria de IV e X, uma abordagem desenvolvida por Clóvis Peres para a interpretação astrológica. Há anos, esta abordagem vem sendo ensinada por Peres aos seus estudantes. Contudo, não havia ainda sido formalizada em uma apresentação teórica ao meio astrológico. Este trabalho visa poder realizar tal registro, utilizando-se da teoria psicanalítica, a fim de examinar e aprofundar as questões colocadas por esta via de interpretação astrológica.

O diálogo da astrologia com a psicanálise vem de longa data. O corpo teórico da psicanálise possibilita aprofundar a investigação em astrologia. Pela qualidade constante de questionamento e investigação é que a psicanálise é escolhida aqui como interlocutora.

De início, conta-se como foi formulada esta teoria de Peres, abordando-se a especificidade do trabalho com as cruzes. Apresenta-se, então, a Teoria de IV e X. A seguir, faz-se a leitura dos processos da IV e X casas à luz da psicanálise. Após esta discussão, são apresentadas descrições pontuais de cada um dos 12 signos quando encontrados na IV casa zodiacal. Ao final, estão considerações suscitadas por este trabalho.

Como se Desenvolveu a Teoria de IV e X

Clovis Peres iniciou seu estudo em astrologia com a Professora Emma de Mascheville, autora de “Luz e Sobra”, que desenvolveu a Teoria dos Opostos. De 1976 a 1983, Peres viveu em uma chácara no interior do Rio Grande do Sul, dando segmento a seus estudos em astrologia, filosofia, psicologia e teologia. Foi esta disciplina, principalmente, que favoreceu sua escolha pela cruz como elemento fundamental, constatando, como conta, que “no horizonte do ocidente, estão as três cruzes”. Dentro das cruzes, trabalhou com as oposições e elementos.

Duas influências fundamentais foram Sartre, com a máxima “o inferno são os outros” e a questão da liberdade, e Hanna Arendt, que, em “A Condição Humana”, deu a Peres uma noção estruturante das cruzes, trabalhando os conceitos de labor (cardinal), trabalho (fixo) e palavras e atos (comum).

Foi em 1984, quando Peres mudou-se ao Rio de Janeiro, que começou a atender em grande escala, iniciando sua leitura pela IV casa. Surpreendeu-se ao perceber, na prática, o impacto disto nas pessoas, o quanto lhes era demasiado forte tocar de imediato neste ponto. Ao atender uma psicanalista, ouviu dela a observação de o quanto esta forma de interpretação apontava ao cerne de questões muitas vezes alcançadas apenas após longo processo de análise. Seguiu, então este trabalho, começando porém pela X casa, a fim de então poder abordar a IV.

Neste período, fez uma palestra no Congresso da SARJ, O Barroco e a Doutrina de Saturno. Pouco tempo depois, na Academia Brasileira de Letras, deu a palestra “A Lua e o Sentido de Comunidade”. Aí, se processou justamente o diálogo de uma casa com a outra.

Já em 1986, o processo chegou a uma integração – estava pronta a Teoria de IV e X, na época em que Plutão conjuntou o meio-do-céu de Peres.

Desde então, vem fazendo o exercício desta compreensão, tornando conseqüente e coerente esta abordagem que surgiu não a partir da teoria, mas da prática – que, então, dialogou com a teoria.

 

A Especificidade do Trabalho com as Cruzes

A compreensão de Peres das três cruzes do zodíaco pode ser assim descrita:

A Cruz Cardinal: é ligada à Lua. Está relacionada aos afetos. Trata-se de uma percepção a partir das necessidades, uma visão agrícola, ligada ao mito, à intuição, à sensibilidade. Remete ao tempo passado, às referências anteriores (cardus = eixo), àquilo que se quer defender. A oposição tem uma qualidade cardinal.

A Cruz Fixa: é ligada ao Sol. Está relacionada aos objetos. Trata-se de uma percepção a partir dos objetivos, uma visão urbana, ligada ao signo, à lógica, à objetividade, ao distanciamento. Remete ao tempo futuro, àquilo que se quer conquistar. O trígono tem uma qualidade fixa.

A Cruz Comum: é ligada ao Mercúrio, estando relacionada à problemática de integração de ambas as anteriores, tratando assim da própria questão das relações, de como lidar e integrar dois aspectos tão distintos – como diferenciar e integrar. É uma visão nômade. Esta cruz remete ao tempo presente – o que fazer, aqui e agora, com estes dois aspectos da existência. A quadratura, portanto, tem uma qualidade comum.

Peres optou pelas cruzes na medida em elas incluem as oposições e os 4 elementos. Vale observar que a IV e a X são o ponto de partida para algo que se estende em IV, VIII e XII e X, II e VI – que tipo de estrutura afetiva se tem nas casas de água e que tipo de estrutura objetiva se tem nas casas de terra. Pelo mesmo princípio, podem ser vistas as casas de fogo e ar.

A IV e X casas, contudo, formam este eixo central, a partir do qual o ser se situa como sujeito desejante no mundo. O eixo relacional de I e VII respondem horizontalmente ao posicionamento vertical, compondo esta referência estrutural afetiva, que fundamentam os demais aspectos do ser – que está sempre no centro.

O que é a Teoria de IV e X

A partir da estrutura da minha IV casa, desenvolvo seu contraponto, que é minha X casa. Apresento então esta qualidade ao mundo, recebendo como retorno a I casa. Contudo, na medida em que há intimidade, o que transparece é de fato minha estrutura – a IV, que é como experiencio meu íntimo. O retorno, então, passa a ser a VII casa, que é propriamente a casa dos relacionamentos.

O processo de IV e X casas é a própria questão do nascimento, de se individualizar no mundo, de se constituir como sujeito. Enquanto que a I e a VII casas dizem respeito à relação que se estabelece com o(s) outro(s) a partir disto.

A X casa desenvolve-se como imagem que se adquire frente a um outro, que espelha esta imagem, a imagem de um corpo – I casa. A subjetividade – IV casa – se estabelece na relação com o Outro (Código, Lei, Cultura) – VII casa.

A X aparece; a IV transparece.

A chave está em se fazer a inversão, que expressa as capacidades e talentos do ser no mundo, trazendo p/ dentro de si aquilo que é o seu desejo, sua busca – o complemento que equilibra sua estrutura interior.

A Constituição do Sujeito – Um Diálogo com a Psicanálise

Freud (1920) diz que, no início, o princípio que rege a vida psíquica é o do prazer, que visa meramente à satisfação dos impulsos. Contudo, explica que, frente ao meio e às impossibilidades de que tais impulsos sejam satisfeitos sempre de forma imediata, o aparelho psíquico precisa se adaptar e conceber o princípio de realidade, a partir do qual se faz necessário o recalcamento, que represa os impulsos. Frente ao limite saturnino da X, é na IV casa que se encontra a barreira do recalcamento.

A cruz das casas cardinais diz respeito à questão do desejo. A IV casa é base fundamental da constituição do psiquismo. É através da família, do legado familiar, que se inscreve o código da cultura, através do qual o sujeito se insere no mundo:

“Todo o indivíduo parte da precocidade de seu desenvolvimento e transforma-se em sujeito como integrante de uma ordem simbólica mediatizada pela cultura e pela linguagem. Uma vez que estas o antecedem, deve lidar com seu legado geracional (…) a linguagem e a cultura do Outro em um sentido amplo, nos ameaçam porque sua compreensão nos escapa, confrontando-nos não só com nossos limites, mas também com aquilo que nos é estranho e familiar” (Correa, 2000).

O treinamento familiar torna-se aquilo que é o automático, que quando se expressa na intimidade, tende à repetição das primeiras relações objetais. Contudo, quando utilizado no mundo, expressa-se como aquilo que se sabe fazer, que é natural e passível de ser repetido sem maiores esforços – é aí que o treinamento, o legado, torna-se talento, que deve ser posto a serviço no mundo, como expressão autêntica de si – a IV posta na X.

O que se construiu para lidar com o mundo (X casa), que se desenvolveu como imagem social, a partir do desejo por aquilo que é a promessa de completude, o desejo pelo que complementa e equilibra a estrutura afetiva (IV casa) precisa ser realmente internalizado, trazido para dentro de si e das relações íntimas. Trata-se de uma conquista que, por ser o oposto do treinamento, rompe com padrões estabelecidos desde tenra idade, parecendo uma transgressão.

Num primeiro momento (IV para X), são as inscrições da cultura transmitidas pela família que fundamentam a existência e a percepção de si como indivíduo inserido no mundo. Num segundo momento (X para IV), é necessário encarar o desafio de dialogar e questionar estas mesmas inscrições, de modo a se constituir como sujeito, não meramente submetido às leis da cultura, mas sujeito apropriado da cultura que pode assim transformá-la. Conquistar o meio-do-céu, trazer a X casa para a IV casa é tornar-se sujeito. Trazer a X para a IV é precisamente a apropriação do desejo, que constitui e realiza o sujeito.

No sentido da transmissão geracional, Correa (2000), ao se referir à relação entre transmissor e receptor, coloca que este “deve acolher, apropriar-se e transformar o que lhe é transmitido, ainda que nem sempre com sucesso”. Esta sua ressalva, ao final da frase, remete ao desafio da inversão de IV e X proposta por Peres.

Lacan (1949) descreve o estágio do espelho como “uma identificação, no sentido pleno que a análise atribui a esse termo, a transformação produzida no sujeito quando ele assume uma imagem” – processo entre I e X casas. É no estágio do espelho que está “a matriz simbólica em que o [eu] se precipita numa forma primordial, antes de se objetivar na dialética da identificação com o outro e antes que a linguagem lhe restitua, no universal, sua função de sujeito”, quando então está apto a relacionar-se – processo entre IV e VII.

A Lei suficientemente internalizada, pode ser revista. Trata-se não mais do reinado do desejo do Outro (o código da cultura, a Lei), mas do desejo do sujeito.

A Prática da Teoria de IV e X – Os Signos na IV Casa

Áries na IV Casa: o Áries de IV guerreira e/ou briguenta, de modo que sua estrutura afetiva é muito mais explosiva e franca do que o Mc em Libra coloca. Mc em Libra apresenta-se de modo educado, apropriado, gentil e considerado com o outro no mundo, como alguém que preza pelas boas relações e parcerias e que se importa com a aceitação social. Recebe, assim, o Capricórnio dos outros, num primeiro momento, o que significa que os outros também lhe tratam com formalidade e respeito, podendo-lhe delegar responsabilidades. No entanto, a Libra no MC pode ter dificuldades em se posicionar, em uma atitude demasiadamente diplomática, que torna este retorno capricorniano não tanto de respeitabilidade mas de cobrança, cobrança por um posicionamento, cobrança de que a Libra se responsabilize por uma decisão – limite.
Mas, quando há intimidade, é que o Áries estrutural se evidencia: a ambivalência já não domina, e sim o “quero, porque quero!”, e atitudes muito mais francas espontâneas e até impositivas. É na intimidade que se entra em relação, quando então a VII em Câncer se expressa em um outro que não mais formaliza, que não mais tem noções maduras de limites, mas que – frente à iniciativa ariana – se torna dependente e manhoso. Outra variação possível é a de um outro maternal frente a tal estrutura pueril ariana.
A chave desta cruz está em expressar sua individualidade no mundo, posicionando-se (a IV posta na X), bem como em considerar mais o outro na intimidade, suavizando-se interiormente, civilizando-se, a fim de encontrar mais serenidade e paz na relação consigo e com os íntimos.

Touro na IV Casa: o Mc em Escorpião é misterioso, transmitindo a imagem do poder, do domínio, da intensidade e sexualidade. Recebe dos outros o Asc em Aquário, que corresponde a uma frieza e invisibilidade dos outros frente a tal poder e perigo, ou a um interesse por conhecer este mistério. Na medida em que o Touro de IV casa começa a se mostrar – e este é um dos de mais difícil acesso (Escorpião no MC!) – o que se vê é alguém de uma estabilidade emocional, que mantém sua rotina, seus hábitos, com constância, podendo inclusive ter grandes dificuldades a vencer frente ao apego, tendendo a ser indulgente nos prazeres da carne e da matéria, e dependendo de fatos concretos p/ que se sinta afetivamente nutrido. O outro se torna o “rei do pedaço”, podendo fazer “gatos e sapato” do prestativo taurino de IV, que já não se mostra tão intenso e misterioso, mas que pode até se tornar tedioso, com sua mesmice, concretude e foco nas evidências.
A questão p/ esta cruz é adquirir um domínio interior, uma capacidade de fazer silêncio em si, e se colocar mais manso e objetivo no mundo – buscando o domínio de si, pode ser menos desconfiado na sua relação com o mundo.

Gêmeos na IV Casa: o Mc em Sagitário chega impondo sua autoridade, de cabeça muitas vezes erguida, com seu suposto saber. Frente a ele, os outros podem calar (Asc em Peixes), mudos, sem nada a dizer frente a tanto saber. Outro aspecto desta cruz, em sua relação entre X e I casas, é a de um entendimento tácito, de um entusiasmo e encantamento que dispensa palavras. Palavras estas que, no entanto, serão “todas” utilizadas na medida em que se adentrar o terreno da intimidade. Quando se conhece o mutante e questionador geminiano, que muda muito mais de idéia do que o Mc em Sagitário fazia supor, que é muito mais inconstante, indeciso e até atrapalhado e palhaço (divertido, inclusive), é aí que surge um outro virginiano, que vai ser crítico, cobrador, podendo buscar ajudar o Gêmeos a se organizar, frente a tanta duplicidade (inclusive de moradias, muitas vezes).
O Gêmeos de IV casa precisa buscar uma definição interior e uma flexibilidade maior na sua relação com o mundo.

Câncer na IV Casa: esta é a cruz “original”, em que o Capricórnio está na X casa, transmitindo confiabilidade e seriedade. Recebe o Asc ariano, que pode apostar no Capricórnio, se entusiasmar e se dispor a lutar com ele, mas que pode também testá-lo, implicar com ele, brigar e até brincar, na busca de quebrar tanto orgulho, distanciamento, formalidade e seriedade.
Na intimidade do Câncer de IV casa, transparece uma estrutura afetiva muito mais envolvida, reativa e dependente. O Câncer de IV pode ser um tremendo chantagista e manipulador (aprendeu com a mãe), mas pode também ser muito afetivo, amoroso e acolhedor. As relações podem ser com uma Libra que “se faz” para passar bem e dar “curvas” na manipulação canceriana, ao mesmo tempo dependente de sua maternagem e cuidado; ou uma Libra que – frente à capacidade de se vincular e ser afetivo do Câncer – se compromete com este, se alia em uma parceria conciliadora e harmônica.

Leão na IV Casa: o Aquário no Mc pode se mostrar super desprendido, altruísta, solidário e até tentar se misturar na multidão, com originalidade, mas sem aparecer muito, com roupas simples e tal. Com tanta simplicidade, conquista a confiança das pessoas (Touro na I). Na medida em que se entrar no reinado do Leão de IV casa, vê-se que aquele que “não estava nem aí”, tem uma presença constante e impossível de se ignorar. O Leão de IV quer ser sempre o centro das atenções e terá que trabalhar, em especial, a questão da vaidade, a fim de poder assumir seu brilho no mundo (não se boicotando profissionalmente como, por vezes, o faz o aquário ou urano na X).
Seu brilho poderá se manifestar de forma mais equilibrada, na medida que conquiste a tal simplicidade para dentro de si – um despojamento interior, uma consideração do outro, da diferença, da alteridade na intimidade.

Virgem na IV Casa: Peixes no Mc encanta! Sua capacidade de se adaptar e transmitir ao outro o que ele anseia, numa atitude de compreensão e aceitação do humano, provoca no outro uma facilidade em abordar esta pessoa, em falar com e a ela, em se tornar amigo, colega. No entanto, na medida em que se entra em contato com a extrema crítica virginiana da IV casa, se percebe o ceticismo e a constante desilusão do sujeito, que duvida e disseca, ao mesmo tempo em que se perde em detalhes. O outro, então, torna-se um Sagitário que vai tentar dar ao virginiano uma síntese, uma direção. Pode acontecer também de, frente ao escrutínio e descrença encontrados, o outro voe longe, estando pouco presente, a fim de escapar da crítica e da rigidez.
Este eixo (Virgem – Peixes) é o mais complexo nesta posição, em função de sua constante alteração, em que o Peixes torna-se Virgem e o Virgem torna-se Peixes, numa oscilação bem mais freqüente do que os demais eixos zodiacais.
A chave aqui é trazer o encanto, a crença, a entrega para si para as relações íntimas – permitir-se a entrega, o perdão… E pôr a capacidade de análise, discernimento e organização a serviço no mundo, separando o joio do trigo em suas relações sociais e profissionais, de forma a não “aturar” tudo fora e nada dentro – é ordenar externamente e compreender e soltar internamente. O que se vê é que a estrutura virginiana tende a ver o outro como um Outro, que o julga e estabelece as normas, a censura.

Libra na IV Casa: o Áries no Mc é linha de frente na rua. É quem carrega a bandeira, se dispõe a ser o primeiro, com alegria e entusiasmo. Com o Asc em Câncer, o retorno imediato é de familiaridade, com este ser espontâneo e direto.
Quando se convive com a Libra de IV casa, encontra-se um sujeito que, ao chegar em casa, prefere não ter que decidir nem qual tele-entrega chamar; alguém muito mais orientado por convenções do que parecia, alguém bem mais conciliador mas também bem mais “político” do que se pensava, alguém bem mais preocupado com a opinião alheia do que o que diz sua bandeira social. Frente a isto, a VII casa em Capricórnio fala de relações que estabelecem um limite e cobram um posicionamento afetivo, uma presença própria, que não seja tão dependente da parceria.
A questão desta cruz é pôr menos panos quentes na intimidade, permitir a si e ao outro ser um indivíduo espontâneo; e utilizar-se de sua calma e habilidade conciliadora no mundo.

Escorpião na IV Casa: o Touro de X casa mostra-se uma pessoa um tanto concreta e objetiva, que sabe tratar os outros, fazendo com que se sintam muito considerados (Leão na I casa). Na medida em que aparece a intensidade do Escorpião de IV casa, com sua capacidade de “ver tudo” e/ou sua paranóia, o outro se torna Aquário. Ou seja, o outro procura se tornar invisível ou frio, a fim de distanciar-se de tal controle.
A questão aqui é poder, na intimidade, basear-se em evidências concretas, apaziguando-se ao trabalhar a necessidade de controle absoluto, até do que não se vê; e poder utilizar-se de sua percepção profunda e grande capacidade de transformação em sua atividade profissional.

Sagitário na IV Casa: Gêmeos no Mc se coloca no mundo com grande capacidade de adaptação, que pode vir justamente de sua experiência inicial de vida em uma família viajante (por exemplo). Pode ser alguém que se coloca de forma bastante simples no mundo, e até (às vezes) parecer meio à toa, recebendo as críticas virginianas. No entanto, quando vem o sagitário de IV casa, o tom é outro. Aquela flexibilidade toda pode se mostrar uma tremenda rigidez e um forte autoritarismo. Ao mesmo tempo, a capacidade de dialogar com o outro (Mc e Asc regidos por Mercúrio) pode passar a ser uma grande dificuldade em ouvir, em considerar o outro aqui, imediato, uma dificuldade de estar presente. O outro, seja pelos julgamentos e moralismos, seja pela não-presença do Sagitário, pode também como que sair de fininho… ser ambíguo, encobrir coisas, calar.
O trabalho aqui é, como de costume p/ todas as cruzes com fogo no fundo do céu, considerar o outro – neste caso específico, flexibilizar e considerar o outro aqui, presente, próximo e que pode divergir, compreender as coisas de forma diferente e falar a respeito disto. No mundo, cabe se posicionar e mostrar sua capacidade de direcionar e comandar.

Capricórnio na IV Casa: o Câncer no Mc é aquele ser simpático no mundo, que tem medo desagradar, com dificuldades em dizer não, em estabelecer limites nas relações sociais. O outro pode, então, apreciá-lo (Asc em Libra) e utilizar-se destas características de forma sedutora. Quando se conhece o Capricórnio que habita a IV casa, e se compreende o quanto é inseguro afetivamente, e se percebe o tamanho de seu orgulho e o quanto na verdade, sua dificuldade íntima é de dizer sim, a reação é ariana, podendo o outro brigar com a torre capricorniana ou brigar junto, num pacto de lealdade.
A questão do Capricórnio de IV é aprender a dizer mais não na rua e mais sim em casa. É poder colocar-se no mundo, com os devidos limites, assumir sua seriedade e conquistar internamente segurança afetiva, podendo cuidar melhor de si, cobrando menos de si e dos outros, abrindo-se p/ entrar verdadeiramente em intimidade com alguém.

Aquário na IV Casa: o Leão no Mc chega em cena brilhando, sempre marcando presença. Estando sujeito às desconfianças, testes e inveja dos outros (Asc em Escorpião), ao mesmo tempo em que provoca intensa atração. É, primeiramente, um encontro de fortes presenças. No entanto, quando se conhece o Aquário de IV casa em seu despojamento, e seu descobre sua insegurança, simplicidade e capacidade de ser amigo e aceitar a diferença do outro, as relações do Touro de VII podem ser consistentes e duradouras. A dificuldade em ter uma presença física vibrante (como “vende” o Mc em Leão) pode-se relacionar a um considerável tédio nos relacionamentos, que prometiam ser tão intensos.
A questão aqui é trabalhar uma presença física vibrante na intimidade, consigo próprio e com o outro. É poder desenvolver uma segura confiança em si, um calor interior. Da mesma forma, trata-se de poder – a partir do desenvolvimento desta confiança interior – mostrar-se mais simples e amigo na rua, solidário mas sem precisar exaurir seu fogo p/ agradar ou impressionar os outros. Assumir o aquário é assumir sua naturalidade e simplicidade, que ainda assim vai sempre ter o véu brilhante do Mc em Leão.

Peixes na IV Casa: a Virgem no Mc pode-se mostrar um tanto coerente, certinha e trabalhadora, e que critica publicamente. Recebe, assim, o entusiasmo ou o julgamento do Asc em Sagitário. Na medida em que se convive, aparece o Peixes de IV, que pode ser bem menos coerente, que é bem menos concreto em sua forma de perceber o mundo, e que tem uma capacidade bem maior de aceitar e compreender o que lhe é estranho. Pode-se mostrar alguém bem mais “viajandão” do que parecia, e com dificuldades consideráveis de expressar o que sente.
É preciso assumir e pôr a serviço sua sensibilidade e capacidade de apreender o invisível. Para isso, é necessário também trazer a Virgem para dentro, ou seja, discernir nos afetos o que é seu e o que é do outro, organizando e definindo seu espaço interior.

É importante observar que estas descrições consideram meramente a disposição dos signos, desconsiderando neste momento interceptações, regências e disposições.

Considerações Finais

A Teoria de IV e X, enfatizando justamente o eixo vertical central do zodíaco, é um solo fértil, que possibilita o exame de diversas questões referentes à experiência e à trajetória humana. Nem todas essas questões estão aqui colocadas. Contudo, espera-se ter podido transmitir o fio que liga a tais investigações. Este caminho de investigação aqui proposto mantém-se aberto ao aprofundamento futuro desta temática.

O diálogo entre astrologia e psicanálise possibilita um enriquecimento mútuo, em que ambas ciências dispõem de fundamentos para embasar uma à outra.

Poder inverter a IV e a X casas significa expressar a capacidade e o talento do ser no mundo e apropriar-se, em seu íntimo, de seu desejo – movimentos estes que possibilitam a realização do sujeito.

Referências Bibliográficas

ARENDT, Hanna. A Condição Humana. 10ª ed. Rio de Janeiro, RJ: Forense Universitária, 2001.
BLEICHMAR, Silvia. A Fundação do Inconsciente – destinos de pulsão, destinos do sujeito. Porto Alegre, RS: Artes Médicas Sul, 1994.
CORREA, Olga B.R. O Legado Familiar – a tecelagem grupal da transmissão psíquica. Rio de Janeiro, RJ: Contra Capa Livraria, 2000.
FREUD, Sigmund. Além do Princípio do Prazer (1920). In: Edição Standard das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro, RJ: Imago, 1996.
LACAN, Jaques. Escritos. Rio de Janeiro, RJ: Jorge Zahar, 1998.
LACAN, Jaques. Outros Escritos. Rio de Janeiro, RJ: Jorge Zahar, 2003.

* Este, acima, é o artigo da palestra pela qual recebi o prêmio de melhor trabalho inédito pela escolha do público, no VII Simpósio Nacional de Astrologia do SINARJ (Rio de Janeiro, 2005).

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